Entrevista Especial
Nelson Araújo
Ano 6 - Edição 28 - Set/Out de 2014

Batuiruçu

Publicado em 22 de Janeiro 2014

Batuiruçu

A represa Guarapiranga possui uma enorme diversidade de aves. São aproximadamente 250 espécies, divididas entre aves de mata, como beija flores, chocas, inhambus, jacus, corujas, saíras e sanhaços. Tem também as aves de campo aberto como andorinhas, gaviões, caminheiros, coleirinhas e pintassilgos e aves de água e brejo como as saracuras, marrecos, galinhas-d´água, biguás, garças e socós. A maioria destas aves é residente da represa, mas temos também muitos visitantes, aves consideradas migratórias, que passam apenas um período de suas vidas pela represa, em busca de condições mais favoráveis e depois retornam aos seus locais de origem.

É de um desses ilustres visitantes que falaremos nessa edição, a Pluvialis dominica ou BATUIRUÇU, como é popularmente conhecida. Batuiruçu (Pluvialis dominica) Nos últimos 100 anos não havia registros dessa batuíra na cidade de São Paulo. O único registro encontrado foi feito em 1904 na região do Ipiranga, que na época apresentava diversas áreas alagadas e brejos. No entanto, em novembro de 2004 ela foi observada pela primeira vez na represa Guarapiranga, e a partir de então foi registrada praticamente todos os anos, sempre na mesma época de migração, entre setembro e março.

Este maçarico adora praias de areia e áreas de banco de sedimento (lama) e se alimenta de pequenos invertebrados.

O Batuiruçu chega a viajar até 12.000 quilômetros, a uma velocidade de até 90 quilômetros por hora, desde o Pólo Ártico até o Sul da América do Sul. Estes vôos são realizados em grande parte durante a noite, quando o risco de predação diminui significa- tivamente.

Já registramos grupos de 2 a 16 indivíduos na Guarapiranga. Um dos locais mais fáceis para se observar o batuiruçu é a Praia do Sol, antiga praia da Lola.

Mudança de estação – mudança de figurino!
Elas apresentam dois tipos de plumagem: uma de inverno e migração, que não é tão exuberante e outra plumagem mais colorida e evidente, que caracteriza a fase de reprodução.

Aqui no Brasil, podemos observar a batuiruçu com a plumagem mais discreta e camuflada, que serve para ela se proteger de predadores durante o período de migração. Já nos EUA e Canadá, os observadores olham praticamente “outra ave”, tamanha é a diferença na cor das penas. Esta peculiaridade faz destes maçaricos um grupo especial dentro das aves.

Conservação
A conservação destas espécies intercontinentais precisa ser feita ao lon-go de todos os países pelo qual elas passam, senão suas existências ficam comprometidas. A destruição dos habitats, principalmente brejos e mangues, a poluição dos corpos d´água e a caça ilegal, estão entre as principais ameaças destas espécies migratórias.

E nós? Será que estamos proporcionando boas condições de “hospedagem” e “alimentação” para estas aves durante sua passagem pela represa do Guarapiranga? Com certeza estamos deixando a desejar. Nossa represa está suja e elas precisam disputar lugar com garrafas pets e com embalagens plásticas para conseguir seu alimento. A cada dia a represa fica mais poluída e assoreada devido a ações clandestinas em seu entorno.

Nós, como anfitriões que somos, precisamos cuidar melhor de nossa represa e, desta maneira, garantir boas condições para que estes visitantes ilustres continuem a retornar todos os anos. Senão, o que eles vão falar de nós lá fora?

Fabio Schunck: é biólogo formado pela UNISA - Universidade de Santo Amaro e trabalha com pesquisas ligadas a ornitologia (estudo das aves) através do laboratório de ornitologia do Instituto de Biociências e Museu de Zoologia da USP e com fotografia de natureza.
Contato: fabio_schunck@yahoo.com

Publicado na 3ª. Edição / 2008

Edições Anteriores
Conheça todas as edições anteriores
da revista viverde.

Cadastre-se

Para receber nossa newsletter, cadastre seu email no campo abaixo.

Apoio