Entrevista Especial
Nelson Araújo
Ano 6 - Edição 28 - Set/Out de 2014

O tatu-bola de jardim - perto da extinção

Publicado em 22 de Janeiro 2014

O tatu-bola de jardim - perto da extinção.

É curioso imaginar que um animal tão pequeno e comum esteja sob ameaça. Porém, para sua escala de tamanho, isso está ocor- rendo. Longe de qualquer perigo numa escala continental ou nacional, mas do nosso jardim. Na verdade, nosso velho conhecido desde a infância, o “tatu-bola”, é o representante mais notável de uma classe trabalhadora inteira de pequenos seres, que cada vez menos são encontrados em nossos jardins.

Esses pequenos seres representados aqui pelo tatu-bola são conhecidos tecnicamente como macro e micro-organismos do solo. São eles uma infinidade de pequenos a minúsculos insetos, inofensivas aranhas, formigas, fungos, bactérias, cupins de jar- dim, caramujos, larvas e a nossa amiga, a minhoca. Esses pequenos e numerosos seres prestam um serviço imprescindível à vida, que está sendo dispensado pela maioria de nós. A falta do tatu-bola e daqueles seres que ele representa aqui, é consequên- cia de um problema urbano ambiental e econômico.

Cada vez mais os restos de faxinas em jardins são tratados equivocadamente e de forma generalizada como “lixo” por cidadãos, empresas, profissionais de jardinagem e pelo próprio serviço público. Nem mesmo poderiam ser tratados como “resíduos”, já que são parte indispensável nos ecossistemas. É frequente observar em frente das casas sacos de lixo, às vezes dezenas deles, com folhas, galhos e grama cortada, empilhados para o recolhimento pelo serviço público de coleta de lixo.

Os seres que o tatu-bola aqui representa são responsáveis pela decomposição da matéria orgânica, ou mais apropriadamente, pelo consumo desta. Entende-se por matéria orgânica, aqui, tudo aquilo que já fez parte de um ser vivente ou que já foi um, como folhas, galhos, pelos, fezes de animais, ossos, madeira, restos de comida, animais mortos etc.

Os macro e micro-organismos do solo, como são tecnicamente chamados, em quantidade apreciável, são capazes de consumir em velocidade impressionante todo esse “lixo verde” e como consequência melhorar a qualidade do solo, beneficiando principal mente as plantas pela ciclagem de nutrientes. O “lixo verde”, que deve ser encarado como matéria orgânica, é o melhor condicionador do solo por proporcionar condições para a manutenção da vida desses seres decompositores Criando um verdadeiro ecossistema na superfície e nos primeiros 30 centímetros do solo, esses organismos fragmentam e se alimentam da matéria orgânica, excretando, escavando túneis no solo, revolvendo e fertilizando o solo através da isponibilização de nutrientes como N, P, K (Nitrogênio, Fósforo e Potássio), antes fixados nas moléculas orgânicas de folhas, galhos e outros materiais orgânicos, na quantidade e velocidade ideal de tal forma que somos incapazes de proporcionar para as plantas através de fertilizantes e adubos químicos. Também protegem o solo do carregamento pela águas das chuvas (erosão) e estimulam o florescimento das plantas.

As atividades desses seres se dá principalmente na ausência de luz sob certas condições de umidade, temperatura e aeração. Sem entrar no méritos dos valores, mas as condições ideais para sua existência são aqueles cantinhos úmidos em que bate pouco sol, como nos canteiros aos pés das plantas e árvores, que irão se beneficiar enormemente com a atividade deles. Além de achar um destino para o “lixo verde”, o depósito desse material sobre o solo garante a seu equilíbrio físico, químico e a umidade ideal do mesmo para as plantas.

A tão famosa terra vegetal que se compra por ai, nada mais é do que o “lixo verde” processado por esses fantásticos seres. O idolatrado húmus é a fração mais fina da matéria orgânica processada por esses mesmos seres, que adere nos grãos de minerais do solo.

Como se não bastasse o benefício para solo e plantas, a decomposição de matéria orgânica sobre o solo é uma prática que cumpre um papel significativo no combate do efeito estufa, uma vez que estimativas de pesquisadores e cientistas afirmam que o solo com matéria orgânica é responsável por reter até 12,4 kg de carbono por metro quadrado no primeiro metro de profundidade, enquanto que na parte aérea, acima do nível do solo, contabilizando todas a plantas, se consegue metade desse valor por metro quadrado nas florestas tropicais da Amazônia, por exemplo.

quem torça o nariz para a adoção de novas práticas e mudança de hábitos. A decomposição de folhas, galhos e matéria orgânica de outra natureza sobre solo nos jardins e vasos, não agrada a todos estéticamente e parece ser mais correto ensa- car tudo e colocar na frente de casa para o lixeiro levar. Entretanto, agindo dessa forma, estamos onerando o serviço público municipal desnecessariamente, contribuindo para o aumento de gastos públicos e impostos, com um material que facilmente poderia permanecer no jardim e beneficiá-lo. Quando juntamos tudo numa pilha o volume assusta um pouco, porém esse material picado com o auxílio do facão ou picadores trituradores para jardins (já existem no mercado em vários modelos!) seu volume diminui significativamente e pode ser facilmente depositado nos canteiros, nos pés das árvores e plantas cobrindo o solo. A partir daí quem se encarrega de terminar os serviços são os macro e microorganismos do solo. Quanto mais fragmen- tado o material, mais rápido é o consumo da matéria orgânica. Em dias frios ou em épocas muito secas, as atividades dos ma- cro e micro-organismos são prejudicadas ou até mesmo paralisadas.

Os restos de plantas espalhados sobre o solo nu, numa camada de 5 a 10 centímetros são garantia de solo saudável e sem mato. À medida em que se depositam sucessivas camadas de matéria vegetal morta, a camada mais inferior é consumida. Re- mover folhas, galhos e gravetos, como lixo, é abrir mão de um bom fertilizante orgânico. Não há risco de invasão da fauna nas re- sidências, e toda matéria orgânica que não exala forte odor ou mau cheiro não atrai moscas ou ratos.

Christian Roiha de Oliveira - Engº Florestal

e-mail: croiha.o@gmail.com

Publicado na 8ª. Edição / 2009

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