Entrevista Especial
Nelson Araújo
Ano 6 - Edição 28 - Set/Out de 2014

Da Natureza ao Romantismo

Publicado em 22 de Janeiro 2014

Da Natureza ao Romantismo

Os primeiros poetas e prosadores do Romantismo brasileiro exploravam o esplendor da nossa natureza como glorificação da brasilidade. Era o imediato pós-independência e se exaltava a pátria por qualquer pretexto. O Romantismo, movimento literário que vigorou no Brasil, grosso modo, de 1836, com a publicação do poema “Suspiros Poéticos e Saudades”, de Gonçalves de Magalhães, a 1877, com a publicação do romance “Encarnação”, de José de Alencar, era nacionalista e usava a natureza para mostrar a superioridade brasileira e das Américas sobre os ex dominadores europeus. Tanto que o romance “Iracema”, de José de Alencar, é anagrama (escrito com as mesmas letras) de América.

Exibia-se, para mostrar nossa superioridade, uma natureza exuberante, esplendorosa. Para aquelas finalidades, isso era vá- lido. Até que surge um poeta, Fagundes Varela, cuja poesia pinta uma natureza mais realista e minuciosa, citando menos aquilo a que podemos chamar de macronatureza (o mar, as serras e montanhas, os grandes rios, etc.) e explorando a sensibilidade e a sutileza cintilante da micronatureza, até então bem menos prestigiada.

Na Ilha, várias agências proporcionam a chegada a Castelhanos. O acesso é difícil, e só existem três maneiras de se chegar lá. Jipe (2 horas), barco (3 horas) e caminhada (5 horas).

Começa a cantar o sabiá (já cantado, diga-se, na extraordinária “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias), a rola, o vaga- lume, a borboleta, as flores e árvores individualizadas, enfim, os mais variados aspectos e nuances da rica natureza brasileira.

Como exemplo, entre tantos poemas de Fagundes Varela que cantaram a nossa natureza, como “O Sabiá”, “Poema”, etc., escolhemos, para a sensibilidade de nossos leitores, um especial:

A FLOR DO MARACUJÁ

Pelas rosas, pelos lírios, Pelas abelhas, sinhá, Pelas notas mais chorosas Do canto do sabiá, Pelo cálice de angústias Da flor do maracujá! Pelo jasmim, pelo goivo, Pelo agreste manacá, Pelas gotas de sereno Nas folhas do gravatá, Pela coroa de espinhos Da flor do maracujá! Pelas tranças da mãe-d’água Que junto da fonte está, Pelos colibris que brincam Nas alvas plumas do ubá, Pelos cravos desenhados Na flor do maracujá.

Pelas azuis borboletas Que descem do Panamá, Pelos tesouros ocultos Nas minas do Sincorá, Pelas chagas roxeadas Da flor do maracujá!

Pelo mar, pelo deserto, Pelas montanhas, sinhá! Pelas florestas imensas Que falam de Jeová! Pela lança ensanguentada Da flor do maracujá! Por tudo o que o céu revela! Por tudo o que a terra dá Eu te juro que minh’alma Da tua alma escrava está!!... Guarda contigo este emblema Da flor do maracujá!

Não se enojem teus ouvidos De tantas rimas em – a – Mas ouve meus juramentos, Meus cantos ouve, sinhá! Te peço pelos mistérios Da flor do maracujá!

Por que escolhemos especialmente esse poema? É simples. Para os ideais do Romantismo, não há cenário mais lindo para o amor do que a própria natureza. Amor e natureza vivem juntos no Romantismo. E podemos concluir com uma singela pergunta: há realmente algum outro cenário mais propício à revelação do amor do que a linda natureza?

Publicado na 11ª. Edição / 2009

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